quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Quem dera-me

Quem dera-me ver teu rosto,
mesmo que num esboço.
Um borrão desconexo,
mal pintado,
incerto.
Do teu semblante, uma fagulha,
dos teu olhos, uma pintura.
Quem dera-me ter você todos os dias,
para dividir as alegrias.
Ter-te ao meu lado,
mesmo que seja mal pintado,
mesmo que não emoldurado,
mesmo que não de verdade,
só para a minha necessidade
quase louca,
quase rouca.
de você.





                                  Valéria Mares

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Faça de mim o teu lar


Beija meu ego com tuas mentiras doces, enquanto eu te explico, com dados estatísticos, sobre os riscos do crescimento populacional. Sei que você não está nem um pouco interessado na minha pesquisa de mestrado, mas, mesmo assim, fica aqui. Me encara com teus olhos negros e curiosos, me faça perguntas, ria das minhas piadas sem graça e faça piadas de verdade para eu rir. Beba chá comigo, apesar de você preferir café, me obrigue a comer feijão "porque faz bem", apesar de eu odiar esse grão. Me fale do seu dia, do seu trabalho, do caminho de ida e volta. Me deixe ouvir sua voz todos os dias. Me chame para perto, faça de mim o teu lar.






                                    Valéria Mares

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Na doçura dessa vida amarga

Na doçura dessa vida amarga,
encontrei meu encanto de ser poeta.
E vivi,
Sofri.
Te vi.
Te amei.
Nas estradas desse caminho selvagem,
encontrei a floresta das palavras.
E corri.
Segui.
Te quis
pra mim.
Nas águas secas desse mar de pessoas,
encontrei teu rosto em versos.
Concretos.
Incertos.
Em mim,
assim.




                                      Valéria Mares

sábado, 9 de agosto de 2014

Enfim

Chora tuas palavras no papel amassado do meu coração.
Me veste com tua poesia,
me faça explodir com tua canção.
Borra meu corpo com teus lamentos, teus contornos.
Me pinta com tinta,
me enche de adornos.
Grava teus versos em mim,
pra eu ser tua, enfim.

Valéria Mares


terça-feira, 29 de julho de 2014

A espera

E é sempre assim nessas tardes cinzentas, deito-me no sofá cor de creme e pego um livro ou um bloco de notas, leio ou escrevo para passar o tempo. É como se eu estivesse perdido no gelado Oceano Pacífico e as palavras fossem minhas boias. Elas me mantém flutuando no mar da minha mente e não me deixam afundar na inconsciência - ou na insanidade. O Pink Floyd ecoa baixo, vindo do quarto, propagando-se no ar até meus ouvidos cansados.
"The lunatic is in the hall".
"Yes, I am", respondo.
E minha cabeça gira, sentindo o prazer, o êxtase mental, o único que posso usufruir e que me arranca das malditas memórias, das imagens daquele rosto pálido.
Não sei ao certo se vai voltar ou não, mas vou esperar nesse sofá cor de creme ouvindo Pink Floyd, enquanto eu viver. Isso posso lhe garantir.

                                                                  Valéria Mares

terça-feira, 22 de julho de 2014

Menina do pé de samba

Imagino teu mundo no meu,
e te invento pequenina só pra mim.
Mergulho no teu olho de céu,
e no teu rosto que inspira Jobim.

Menina da fala de sopro,
me fala de novo,
Tu és feliz?

Me diz o que tu gosta,
Levanta o teu véu.
Faz dessa noite nossa,
me beija com teu olho de céu.

Menina do pé de samba,
me chama pra dança,
e me deixa ser teu?




                           Valéria Mares




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Seja sua


Se possua,
Seu corpo é seu, menina.
Fique nua.
Na nudez da liberdade.
Se insinua.
Teu corpo é poesia.
Seja sua.



                                         Valéria Mares




sábado, 17 de maio de 2014

Tudo em ti sou eu

Menino,
teus olhos de negritude,
tua pele de brancura,
teu aroma de homem,
tua voz de doçura.
Tudo em ti é meu,
tudo em ti sou eu.



           Valéria Mares

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Paranoia


Me assusto quando esses teus olhos negros se desviam dos meus. Quando você olha, assim, pensativo para o outro lado da rua. E eu vejo seu rosto se encher de uma frustração, um desejo, sabe deus do quê. Talvez você esteja cansado da minha monotonia. Revoltado com a minha prostração, minhas loucuras momentâneas. Talvez eu não seja boa para você e você seja bom demais para mim. Você, tão simples; eu, tão complexa. E você desvia seus olhos, cerra os lábios. Eu abaixo a cabeça e penso: "só não vá embora de mim,  por favor."



                              Valéria Mares

terça-feira, 6 de maio de 2014

Eu vivo pelas palavras

Vejo meus versos perdidos pela casa. Espalhados pelo chão, grudados nos grãos de poeira da estante, perdidos entre as páginas dos meus livros mal arrumados, rodopiando junto com as notas de rock progressivo que toca baixo, embalando meus devaneios. Eu me sento de frente à máquina de escrever e bebo algo, seria whisky ou chá? Não sei dizer, devo estar bêbado. Sangro aos poucos com palavras cortantes datilografadas lentamente. Sou masoquista e abuso delas. As palavras. Tento matá-las, mas não consigo. Elas me dão prazer enquanto me matam aos poucos. Eu vivo pelas palavras, e muito provavelmente morrerei por elas.



              Valéria Mares