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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Pássaro vibrante

Esgueirei-me por entre as falhas,
corri das acusações,
caí entre agulhas e palhas,
queimei dentre as canções.

Fui pássaro vibrante
que às cinzas retornou.
Num estouro fumegante,
enfim se dissipou.

Matei a mim mesma,
você pode me ouvir?
Da minha própria aspereza,
impossível é fugir.

Sou meu próprio inimigo.
Saboto-me, descamo-me,
mas das cinzas vou retornar.
E, sozinha, voltar a voar.





                       Valéria Mares

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Impostor

Não sou eu,
você se enganou.
Desculpe, senhora,
mas eu sou um impostor.

Não fui eu,
você está errado.
Com licença, rapaz,
mas eu estava do outro lado.

Sim, agora sou eu.
O que errou, o que sofreu.
O falho, o impostor,
não digno de tanto amor.

Impostor, fui eu a usurpar.
Não mereço aqui estar.
De mim, só sinto rancor
de ser sempre um impostor.


  Valéria Mares.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Perdas

Se dizia poeta,
mas perdia as palavras.
Se dizia bonita,
mas perdia os reflexos.
Se dizia feliz,
mas perdia os sorrisos.
Se dizia forte,
mas perdia a coragem.
Se dizia inteligente,
mas perdia as contas
de quantas perdas
teve que enfrentar.




       Valéria Mares

Olhos em fogo

Queima,
em brasa.
Quebra
a taça.
Grita, esperneia.
Incendeia
sua raiva contida,
sua mente contrita.
Olhos em fogo
para a nudez do corpo.
É tudo uma trapaça,
a visão embaçada.
Não vê a dor,
tudo é calor.
Lábios em chamas,
olhos em fogo.
Queima.
Estou em brasa,
queimada pela sua falta.
Mas a dor tem sua graça.
O amor pode queimar,
a dor, incendiar.




                     Valéria Mares

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Lua da poesia

Sou a lua da poesia.
Na nova sou papel em branco;
na crescente sou ponta de caneta;
na cheia sou verso sufocado
e na minguante, sou estrofe morta.







                   Valéria Mares





sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dádiva feminina

Que do sangue eu me renove,
me transforme.
O sangue que dá a vida,
que cura a ferida.
O sangue da transformação,
a menstruação.
Dádiva feminina.
Sangrar sem morrer,
sangrar para fortalecer.
Teu sangue é teu poder,
não o renegue,
ou de volta ele te renegará.




                     Valéria Mares

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Flor e espinho

Que a escrita me arrume da bagunça que sou,
me salve dos demônios que tenho,
me leve aonde sei que vou.
Que a escrita não me abandone,
que chame meu nome,
que faça eu me ler.
Que ela somente me deixe ser
aquele emaranhado de flor e espinho
que eu, teimosa, fui nascer.


                       Valéria Mares

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eu moro na palavra

Às vezes sei tanto que não sei dizer o que sei.
Palavras são abismos,
suaves rabiscos
do buraco negro que me tornei.

Minha casa é o verso,
sem telhado,
sem concreto.
onde ventila e chove letra
direto da ponta da caneta.

Sou pequena e sou grande,
sou poesia insinuante.
Eu moro na palavra,
sou tudo, quando o mundo me reduz a nada.






                   Valéria Mares

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Quem dera-me

Quem dera-me ver teu rosto,
mesmo que num esboço.
Um borrão desconexo,
mal pintado,
incerto.
Do teu semblante, uma fagulha,
dos teu olhos, uma pintura.
Quem dera-me ter você todos os dias,
para dividir as alegrias.
Ter-te ao meu lado,
mesmo que seja mal pintado,
mesmo que não emoldurado,
mesmo que não de verdade,
só para a minha necessidade
quase louca,
quase rouca.
de você.





                                  Valéria Mares

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Na doçura dessa vida amarga

Na doçura dessa vida amarga,
encontrei meu encanto de ser poeta.
E vivi,
Sofri.
Te vi.
Te amei.
Nas estradas desse caminho selvagem,
encontrei a floresta das palavras.
E corri.
Segui.
Te quis
pra mim.
Nas águas secas desse mar de pessoas,
encontrei teu rosto em versos.
Concretos.
Incertos.
Em mim,
assim.




                                      Valéria Mares

sábado, 9 de agosto de 2014

Enfim

Chora tuas palavras no papel amassado do meu coração.
Me veste com tua poesia,
me faça explodir com tua canção.
Borra meu corpo com teus lamentos, teus contornos.
Me pinta com tinta,
me enche de adornos.
Grava teus versos em mim,
pra eu ser tua, enfim.

Valéria Mares


terça-feira, 22 de julho de 2014

Menina do pé de samba

Imagino teu mundo no meu,
e te invento pequenina só pra mim.
Mergulho no teu olho de céu,
e no teu rosto que inspira Jobim.

Menina da fala de sopro,
me fala de novo,
Tu és feliz?

Me diz o que tu gosta,
Levanta o teu véu.
Faz dessa noite nossa,
me beija com teu olho de céu.

Menina do pé de samba,
me chama pra dança,
e me deixa ser teu?




                           Valéria Mares




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Seja sua


Se possua,
Seu corpo é seu, menina.
Fique nua.
Na nudez da liberdade.
Se insinua.
Teu corpo é poesia.
Seja sua.



                                         Valéria Mares




sábado, 17 de maio de 2014

Tudo em ti sou eu

Menino,
teus olhos de negritude,
tua pele de brancura,
teu aroma de homem,
tua voz de doçura.
Tudo em ti é meu,
tudo em ti sou eu.



           Valéria Mares

domingo, 20 de abril de 2014

Minha casa sou eu

 Na minha casa cabe saudade,
cabe amor, até rancor.
Mas cabe autenticidade,
cabe felicidade.
Cabe eu, tão profunda.
Minha casa se inunda,
de mim.





                 Valéria Mares


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Cara de boneca


Eu tenho essa cara de boneca quando o mundo todo fica sem graça e perde a cor.
Eu tenho esse jeito sapeca quando está tudo certinho, sem sabor.
Me perdoe por essa infantilidade momentânea.
Entende que anda tudo tão sério nessa vida cotidiana.
Porque eu odeio a mesmice de ser adulta.
Porque eu brinco e dou risada mesmo, sem culpa.
Releve minhas crises, meus dramas.
É que, às vezes, eu me vejo assim, em chamas.
Então me deixar incendiar teu coração.
Pois eu sou assim, toda amor, toda paixão.


                      Valéria Mares

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Despedida

Minha lágrima cinzenta
rolou tranquila,
indolor.

Meu suspiro indefinido
escapuliu sozinho,
indolor.

Meu sorriso falso
mostrou-se manso,
indolor.

Meu aceno de despedida
anunciou-se cruel.

Se foi,
doeu.



                    Valéria Mares

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Memórias cruas

Inspiro.
Expiro.
Penso. Falo.
Me perco sozinha no meu abismo particular.
Tão peculiar.
Tão pensante, gritante, atordoante.
Grito, giro.
Costas nuas.
Memórias cruas.
Ecos gelados.
Risos abafados.
Me afundo perdida no oceano que é a minha mente.
Memórias.
Tão pálidas.
Desformes.
Cruas.
Crio, invento.
Uma ponte.
Tão perto.
Tão longe.



              Valéria Mares

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Era menina

Era menina,
Pequena, frágil.
Coração em ruína.
Era facera,
Por vezes, ágil,
Sempre guerreira.
Tinha beleza genuína,
Aquela menina.
Rosto sereno,
Amava um moreno
Que nunca viria
A notar aquela guria.
Todos ouviam
O que ela dizia.
Contava contos,
Inventava sonhos.
Era inteira, serena,
Pequena.
Transbordava saber.
Não tinha vergonha de ser.
Bonita e calma,
Era mulher,
De corpo e alma.



            Valéria Mares


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Seja meu

Te desejo.
Inteiro, completo,
no concreto.
Cabelos bagunçados,
olhos cansados.


Seja meu,
me dê aquele
carinho teu.
Me diga
que esta vida,
apesar de sofrida,
meu bem,
pode ser bonita.


                Valéria Mares