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domingo, 5 de abril de 2015

Medo morto

Morreu em mim naquela noite solitária. Morreu dentro da minha carne, dos meus ossos. Sangrou, tingindo do mais puro e lindo vermelho todo o meu corpo magro e branco. Matei-o com a adaga mais afiada, guardada virgem por anos de existência da minha alma. Penetrei-lhe com a lâmina até o líquido rubro espalhar-se graciosamente. Suspirei aliviada quando a morte o pegou sorrateira, levanto-o para o inferno, o tártaro, valhalla ou seja lá o que ele acreditava. Morreu meu medo naquela noite de outono, quando a lua de sangue iluminava o céu. Morreu meu medo quando descobri quem eu sou. Morreu meu medo com a adaga da verdade íntima do meu ser. Sangrou meu medo, banhando-me de prazer. Um prazer de ser pura e verdadeira, um prazer de medo morto.

                                                         Valéria  Mares

domingo, 1 de março de 2015

Inércia

Era como se uma vertiginosa nuvem de vapor houvesse se dissipado pelos fracos raios de sol que se infiltravam pelo teto do meu quarto cinzento. Era março e cada fibra do meu corpo sentia o outono se aproximando sorrateiramente. Minha pele descamava e minhas unhas quebravam ao menor toque. Os cabelos opacos caíam e eu me sentia uma árvore perdendo suas folhas. Meu peito era um buraco negro sem fim que abrigava apenas as questões de vida e morte que me atormentavam. No fundo eu sabia que não havia resposta, mas minha pele teimava em descamar, sedenta de conhecimento. O mundo era uma enorme floresta de questões e eu era apenas uma árvore perdendo suas folhas com o
outono. Talvez se eu quebrar o princípio da inércia, eu consiga respostas, pensei levantando-me. Preparei um café sem açúcar e me pus a ler pela enésima vez os manuscritos de Newton, pensando em quanta sorte ele teve por obter suas respostas. Talvez nem todas, uma vozinha em minha cabeça sussurrou. A inércia é o flagelo da sociedade contemporânea, ninguém quer se levantar e fazer algo. Talvez precisemos de um impulso, a voz na minha cabeça tornou a dizer. Um impulso era o que eu precisava. Tomei um banho frio, vesti algo confortável e saí para receber meu impulso, a maçã que me traria o conhecimento.





                          Valéria Mares


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Doente de alma



A chuva cai gelada lá fora enquanto eu olho pelo vidro embaçado da janela os carros derrapando pelo asfalto encharcado. Meu moletom roxo não parece quente o suficiente para conter meus tremores de frio. Penso naquele rosto pálido que em outros invernos estava junto a mim, me fornecendo o calor de seu próprio corpo. Olho envolta e o apartamento escuro e úmido exala a falta daquele alguém em cada centímetro. Passo a mão pelos cabelos desgrenhados e suspiro. Daqui meia hora tenho que sair para o trabalho e não me animo com isso. O ruim de trabalhar como recepcionista de hospital é que você tem que abrir seu melhor sorriso no rosto mesmo que seu cachorrinho de 10 anos tenha morrido na noite anterior. As pessoas que estão ali já tem problemas demais, então você tem que sorrir para que elas não se sintam tão mal. Suspiro outra vez. E do doente de alma, quem cuida? Levanto e coloco o uniforme do hospital, meus saltos estalando pela escada do prédio, como uma marcha fúnebre para mais um dia de sorrisos falsos.




                       Valéria Mares

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Faça de mim o teu lar


Beija meu ego com tuas mentiras doces, enquanto eu te explico, com dados estatísticos, sobre os riscos do crescimento populacional. Sei que você não está nem um pouco interessado na minha pesquisa de mestrado, mas, mesmo assim, fica aqui. Me encara com teus olhos negros e curiosos, me faça perguntas, ria das minhas piadas sem graça e faça piadas de verdade para eu rir. Beba chá comigo, apesar de você preferir café, me obrigue a comer feijão "porque faz bem", apesar de eu odiar esse grão. Me fale do seu dia, do seu trabalho, do caminho de ida e volta. Me deixe ouvir sua voz todos os dias. Me chame para perto, faça de mim o teu lar.






                                    Valéria Mares

terça-feira, 29 de julho de 2014

A espera

E é sempre assim nessas tardes cinzentas, deito-me no sofá cor de creme e pego um livro ou um bloco de notas, leio ou escrevo para passar o tempo. É como se eu estivesse perdido no gelado Oceano Pacífico e as palavras fossem minhas boias. Elas me mantém flutuando no mar da minha mente e não me deixam afundar na inconsciência - ou na insanidade. O Pink Floyd ecoa baixo, vindo do quarto, propagando-se no ar até meus ouvidos cansados.
"The lunatic is in the hall".
"Yes, I am", respondo.
E minha cabeça gira, sentindo o prazer, o êxtase mental, o único que posso usufruir e que me arranca das malditas memórias, das imagens daquele rosto pálido.
Não sei ao certo se vai voltar ou não, mas vou esperar nesse sofá cor de creme ouvindo Pink Floyd, enquanto eu viver. Isso posso lhe garantir.

                                                                  Valéria Mares

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Antônia e Manuel


O céu era de um brilhante e magestoso azul. A brisa suave agitava meus cachos negros e o sol aquecia
meu corpo. Fechei os olhos, ouvindo os pássaros.
"Tudo é tão lindo aqui." Sussurrei para mim mesma.
"Inclusive você." Disse uma voz grave e familiar.
Manuel.
Meu melhor amigo de infância e homem da minha vida.
Eu sorri ao abrir os olhos e ver seu rosto. Um sorriso angelical estava estampado ali.
"Touxe sorvete para você." Disse me entregando o alimento gelado.
Beijei seus lábios com ternura.
"Obrigada."
Ficamos um tempo em silêncio, ouvindo a natureza, observando as árvores.
"Antônia." Disse Manuel de repente.
"O que foi?"
"Nada, meu amor. Só estava pensando."
"Em quê?"
"Em você."
"Eo que concluiu?"
"É uma surpresa."
Eu adorava surpresas, então não questionei. Apenas me recostei em seu
peito.
"Manuel." Sussurrei.
Ele esperou.
"Tem algo no meu sorvete."
"Surpresa..." Ele riu.
Tirei o objeto do sorvete e ali estava. Melado de baunilha, pequeno e brilhante: um anel.
"Case-se comigo, Antônia."
"Caso."
Ele sorriu e me beijou.
Era o início da nossa felicidade completa.

                 
                    Valéria Mares

quarta-feira, 27 de março de 2013

Uma noite fria de agosto

Era uma noite fria de agosto. Não se sabe ao certo como ela fora parar ali. O fato é: ela era uma menina e estava sozinha a vagar pela cidade numa noite fria de agosto. Sem quê, nem porquê, sem onde ou para onde. Sua mente era como uma TV mal sintonizada. Não via nem ouvia nada, não pensava nada, apenas caminhava pelas ruas mal iluminadas e sombrias da cidade.
Subitamente, ela riu. Uma risada histérica e incomum. Não achava graça em nada e não sabia porquê ria. Sentiu um fragmento de raciocínio em sua mente e questionou sua própria sanidade. Estava louca? Certamente. Rio de novo, cedendo à própria loucura.
Era estranho não pensar mas, ao mesmo tempo, era um alívio.
Lembrava-se de sentir muita dor no coração, de ter chorado muito. Por que havia chorado? Por que sentira dor? Aliás... Queria mesmo saber? Não. Não queria. Queria permanecer eternamente nesse estado de torpor anestésico insano. Era bom. Ela ria. E continuava a vagar pela cidade, absorvendo e esquecendo. Num ciclo confortável.





           Valéria Mares

Solitário professor

O céu era de um azul profundo e inspirador, o cheiro de água salgada entrava por suas narinas enquanto ele caminhava. O mar ia e vinha, molhando seus pés doloridos e cansados. Sentou. Suspirou. Como é belo, pensou. Não se cansava de ver e admirar aquela imensidão azul poderosa. Lembrou-se da conversa que tivera com uma colega de trabalho na semana anterior.
"Estou preocupada contigo." Ela dissera corando.
"Como é?"
Vejo você sempre sozinho, parece cada vez mais solitário. Queria poder fazer algo..." Ela estava ainda mais vermelha.
Ela se importava com ele, parecia amá-lo. Mas ele não podia iludir ninguém. Ainda mais uma moça tão bondosa e bonita como ela. Ele era apenas um homem jovem com alma de velho que acostumou-se a viver sozinho em seu apartamento modesto que só continha em abundância os livros.
"Não se preocupe." Ele tentara sorrir. "Eu fico bem, sempre fico."
Ela balançara a cabeça, não parecendo convencida, e se fora.
Se fora.
Como todos.
Todos que ele deixou ir, que ele afastou intencionalmente ou não.


Ali, sentado à beira do mar, ele sentia todo o peso da solidão. Solidão que ele procurou por tanto tempo e, agora, corroía-o de dentro para fora.




Abraçou os joelhos procurando conforto. Não encontrou. Seus próprios sentimentos o sufocavam, o traíam. Encarou o mar, admirando-o mais uma vez. Sempre vinha vê-lo quando se sentia dessa forma. Mas hoje... Até o mar parecia empurrá-lo para seu abismo interior.
Levantou-se e começou a caminhar de volta para o seu modesto apartamento, continuar com sua modesta vida de solitário professor.





                                    Valéria Mares

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A beleza e a sensibilidade

Então, ali estava eu: sentada em um banco de uma praça qualquer, embaixo de uma árvore qualquer, num momento de reflexão e tormenta qualquer. O livro em minhas mãos tremia, meu peito cansado estava apertado. Pessoas passavam por mim, ignorando-me completamente. Como não conseguiam ver? Eu estava em choque, um choque de realidade. Será que, como eu pensei, nesse mundo de merda só há pessoas insensíveis? Sim. A resposta rodopiava em minha mente. Eu estava paralisada de pavor. Minha própria antissocialidade é prova disso. Insensibilidade me enoja, não sei viver sem apreciar os detalhes, a beleza... Mas não vejo beleza nas pessoas, nesse amontoado de robôs idiotas e alienados, nesses humanos sem humanidade, nessas cidades lotadas e vazias ao mesmo tempo. É ridiculamente irônico como, quanto mais cheio é um lugar, mais solitárias as pessoas são, menos se importam umas com as outras, mais hipócritas são se considerando "boas pessoas", mas se recusam a ver o quão miserável é o mundo em que vivem, ignoram um mendigo, um pobre cachorro abandonado, ma criança com fome... Não faço parte disso, eu pensei. Será? Não é por ninguém em particular que passei a pensar dessa forma, é simplesmente repulsa pela futilidade humana.

Um movimento ao meu lado me arrancou do torpor de pensamentos. Um rapaz bonito usando uma camisa do Pink Floyd havia se sentado ali e me encarava. "Está tudo bem?" ele perguntou. "Você... você parece estar sofrendo..." Eu estava chocada e o rapaz pareceu ter percebido isso, sua expressão ficou ainda mais... preocupada? Isso mesmo? Impossível...
Naquele instante, algo magnífico aconteceu: eu olhei em seus olhos escuros e vi uma beleza pura e única, vi também _ pode acreditar _ sensibilidade. Eu mal podia crer. Eu pude ver sua alma, era tão bela ... tão cheia de vida e bodade. Ele era lindo, tanto por fora quando por dentro. Todo o meu tormento pela humanidade se fora. Ele era diferente, mesmo que fosse o único, ele era uma esperança, uma vela ardente em um mundo escuro e frio. "Agora estou", respondi. Ele sorriu. O sorriso mais sincero e poderoso que eu já vi. Uma esperança queimou dentro de mim. O acaso tem um senso de humor estranho. A beleza estava diante de mim, nem tudo está perdido. Ele era como eu e eu soube que poderiam existir outros. O bem atrai o bem, a gente só tem que aprender a reconhecer.



                            Valéria Mares

sábado, 18 de agosto de 2012

A menina e seu menino

Da janela de seu quarto, ela o via passar. Aquele menino de andar despreocupado, fones de ouvido e all star. Parecia tão forte, tão despreocupado ... E inatingível.
Ela o observou, como sempre fazia a tantos anos. Sem nunca ter dito ou demostrado, ela o amava. 'Só porque ninguém sabe, não quer dizer que não seja verdadeiro', pensava  menina.
Sozinha em sua janela, ela desejou que ele soubesse. Soubesse que havia alguém que o amava. Um desejo tão forte, que a fez sentir dor. É assim, quando desejamos alguém tanto, sem poder ter, dói. Dói muito.
A menina abraçou os joelhos. A umidade em seu olhos escorreu delicadamente pelo rosto, enquanto seu menino virava a esquina.



                                        Valéria Mares