quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Metáfora

Sou metáfora representada pelo arquétipo da fada que não sabe voar. Sim, aquela que detém todo o poder em suas diminutas mãos brancas como a lua cheia. Seus olhinhos tristes a sondar vazio, a ver suas semelhantes voando. Sou essa metáfora intercalada numa realidade escaldante e exigente. Eu não sei voar! Mas todos me cobram, me olham feio, me acham defeituosa. O mundo cobra de mim o que eu não aprendi. O mundo impõe a mim um tempo que não corresponde com o meu próprio tempo particular. Saio sozinha e me jogo num abismo, procurando dar fim a minha frágil existência defeituosa. E é ali, no desespero, no fim, que aprendo a voar, renascendo como uma lótus no lodo.





                    Valéria Mares

Eu mesma


Fujo dos padrões como o diabo foge da cruz. E não é por querer, sabe? Eu sou o que chamam de teimosa e é contra minha natureza fazer o que todo mundo faz, fazer o que esperam de mim. Minha dança é esquerda, minha religião sou eu mesma e não há quem me faça mudar. Nunca me considerei corajosa, mas olhando para o meu passado e tudo que eu vivi, concluí que ser eu mesma foi meu mais nobre ato de coragem.




                  Valéria Mares

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dádiva feminina

Que do sangue eu me renove,
me transforme.
O sangue que dá a vida,
que cura a ferida.
O sangue da transformação,
a menstruação.
Dádiva feminina.
Sangrar sem morrer,
sangrar para fortalecer.
Teu sangue é teu poder,
não o renegue,
ou de volta ele te renegará.




                     Valéria Mares

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Flor e espinho

Que a escrita me arrume da bagunça que sou,
me salve dos demônios que tenho,
me leve aonde sei que vou.
Que a escrita não me abandone,
que chame meu nome,
que faça eu me ler.
Que ela somente me deixe ser
aquele emaranhado de flor e espinho
que eu, teimosa, fui nascer.


                       Valéria Mares

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Anoitecer

O anoitecer é o caos mais ordenado que já vi. Aquela inquietação que não é noite nem dia me fascina. É como a adolescência, nem adulto nem criança. É como se o dia resistisse em morrer. Uma criança teimosa, ele resiste, formando o crepúsculo, o adeus da luz. É uma briga ordenada entre luz e trevas. Duas metades de um todo vital, que por um tempo se apresentam para nos contemplar com esse meio-termo. Eu sou esse meio-termo. Eu sou esse caos ordenado que não é uma coisa nem outra e, no entanto, é tudo. Por isso o anoitecer me fascina, porque se parece comigo. Porque me ajuda a preencher as lacunas de mim mesma e apreciar meu próprio crepúsculo.


        Valéria Mares

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Doente de alma



A chuva cai gelada lá fora enquanto eu olho pelo vidro embaçado da janela os carros derrapando pelo asfalto encharcado. Meu moletom roxo não parece quente o suficiente para conter meus tremores de frio. Penso naquele rosto pálido que em outros invernos estava junto a mim, me fornecendo o calor de seu próprio corpo. Olho envolta e o apartamento escuro e úmido exala a falta daquele alguém em cada centímetro. Passo a mão pelos cabelos desgrenhados e suspiro. Daqui meia hora tenho que sair para o trabalho e não me animo com isso. O ruim de trabalhar como recepcionista de hospital é que você tem que abrir seu melhor sorriso no rosto mesmo que seu cachorrinho de 10 anos tenha morrido na noite anterior. As pessoas que estão ali já tem problemas demais, então você tem que sorrir para que elas não se sintam tão mal. Suspiro outra vez. E do doente de alma, quem cuida? Levanto e coloco o uniforme do hospital, meus saltos estalando pela escada do prédio, como uma marcha fúnebre para mais um dia de sorrisos falsos.




                       Valéria Mares

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eu moro na palavra

Às vezes sei tanto que não sei dizer o que sei.
Palavras são abismos,
suaves rabiscos
do buraco negro que me tornei.

Minha casa é o verso,
sem telhado,
sem concreto.
onde ventila e chove letra
direto da ponta da caneta.

Sou pequena e sou grande,
sou poesia insinuante.
Eu moro na palavra,
sou tudo, quando o mundo me reduz a nada.






                   Valéria Mares

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Sou lamento

Eu sou um oceano num copo d'água. Não caibo em mim, nem nos outros. Sou a bomba atômica que está guardada e pronta para explodir. E destruir. Sou a destruição em massa, dos outros e de mim mesma. Sou a granada nas trincheiras. Aquela com um pino frouxo que, ao menor toque, matará. Sou a calmaria na superfície, enquanto afundo na confusão. Sou lamento. Autodestrutiva. Uma pura confusão.




             Valéria Mares

sábado, 25 de outubro de 2014

Recomeçar

Eu tenho sonhos, sabe? Eu, como qualquer menina, como qualquer pessoa, tenho meus sonhos e anseios. Alguns são bobos e clichês, como casar ao ar livre, ter 2 filhos. Outros são sérios e grandes, como fazer faculdade, publicar livros. Eu nunca me vi como uma pessoa incapaz de fazer essas coisas, do contrário, sempre tive tal certeza. As pessoas geralmente diziam "você consegue, você é inteligente" e eu acreditava, até hoje acredito. No entanto, quando as coisas se apertam e, enfim, chega a hora de você fazer o vestibular, editar o livro, a maioria das pessoas não te apoiam, dolorosamente são as pessoas que você mais ama e as que mais deviam te apoiar. Enfim, hoje quis falar de sonhos e eles geralmente vem acompanhados de dificuldades, seja seus pais, sua cidade, sua dificuldade em física. As coisas sempre vão querer dar errado e a gente tem que ir correndo atrás, da forma que conseguir. E, se não conseguir, adiar. Afinal, ainda existe a vida toda pela frente, o que não podemos é desistir de sonhar. Por isso, devemos recomeçar, nos renovar, deixar-nos podar, murchar, para logo depois florescer outra vez. Traçar novos objetivos, fazer das dificuldades novas oportunidades é fundamental. Só não deixe o tempo parar, nunca, valorize cada segunda da sua
existência. Vença a chuva, espere o momento certo e corra atrás do seu lugar ao Sol.





P.s.: Apenas um grito seco que quis publicar, Valéria.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Quem dera-me

Quem dera-me ver teu rosto,
mesmo que num esboço.
Um borrão desconexo,
mal pintado,
incerto.
Do teu semblante, uma fagulha,
dos teu olhos, uma pintura.
Quem dera-me ter você todos os dias,
para dividir as alegrias.
Ter-te ao meu lado,
mesmo que seja mal pintado,
mesmo que não emoldurado,
mesmo que não de verdade,
só para a minha necessidade
quase louca,
quase rouca.
de você.





                                  Valéria Mares